A Rainha Gentil

A Rainha Gentil

 

 

Em 3 de agosto de 1553, Mary fez uma entrada triunfal em Londres como rainha. Tinha sua irmã Elizabeth, cavalgando ao seu lado. Afinal, Mary não só garantiu o Trono para si como também para uma possível Sucessão da irmã mais moça. O povo nunca se sentira tão feliz com uma ascensão desde que Henrique VIII, havia tornado-se rei. Mas isso, já fazia mais de quarenta anos, e o Reino da Inglaterra já havia sofrido muitas transformações.As condições de Henrique e Mary eram bem diferentes: a legitimidade de Henrique nunca fora posta em prova, diferente da de Mary; Henrique não teve que disputar seu Trono com nenhuma outra pessoa, Mary teve; Henrique foi por sete anos instruído na Arte de Governar, Mary nunca teve este tipo de ensino; Henrique tinha dezoito anos, Mary tinha trinta e sete; Henrique era cultuado por sua beleza, Mary já não era bonita há anos. Provavelmente, a causa da perda da bela aparência, deveu-se às diversas doenças contraídas durante o reinado do irmão.   ( Visão Vitoriana da entrada triunfal de Mary e Elizabeth, de vermelho, em Londres)

Não eram apenas os Católicos que a saudava nas ruas, também os Protestantes fiéis a Dinastia Tudor. As festas em torno das fogueiras, enquanto o povo dançando e cantando por várias noites seguidas. Um visitante italiano, comentou que a cidade estava "em luzes". É de se compreender que se festejasse tanto a tão esperada coroação da filha da "Boa Rainha Catherine", qual havia descaradamente conquistado a afeição do povo.

Mary foi aconselhada pelo imperador Charles V, a ter no início de seu reinado, tolerância com a 'heresia'. Os próprios funerais e sepultamento do irmão, foram celebrados segundo o Calvinismo. Ela permitiu isso, e pretendia ter paciência com o Protestante arcebispo Cranmer, com Jane Grey e, se possível, com o próprio John Dudley. Ela prometeu à Cranmer, que se ele se convertesse ao Catolicismo, ele iria ter ''sua Graça''(perdão). Mas o Conselho Privado da Rainha não estava disposto a conceder esta gentileza.

Os primeiros tempos de reinado foram triunfais. Sentiu-se chocada com a corrupção que imperava na administração. Ordenou que esta roubalheira desenfreada cessasse. As eleições do Parlamento foram ditas por um contemporâneo como "as mais limpas desde que se conhece história como história". A própria Rainha deu um bom exemplo diminuindo as despesas da Casa Real, garantindo a instabilidade da moeda. Mary reduziu bruscamente os impostos, e como a redução deixou a renda mais baixa que a despesa, ela criou direitos aduaneiros sobre a importação de fazendas e taxou a importação de vinhos franceses. As medidas que pretendiam ajudar os pobres, provocaram retração comercial. Mary tentou barrar o capitalismo, limitando o número de teares a um ou dois por pessoa. Criticou a Alta Burguesia (comerciantes ricos) por pagar baixos salários aos seus empregados, e proibiu terminantemente o salário em espécie. Porém, infelizmente, os elementos que a cercavam não não eram de melhor caráter e assim Mary não pôde fazer com que suas ordens fossem totalmente cumpridas. 

A Rainha estava envolvida em obras sociais, e foi dito, que ela tinha o costume de ir nas áreas menos favorecidas de Londres para conversar com as donas-de-casa e ajuda-las no que podia.

A Católica Rainha Mary, ansiava em dignatar sua religião ao fazê-la voltar a ser a religião oficial da Inglaterra, além de  poder devolver as terras 'roubadas' da Igreja quando seu pai fez a Dissolução dos Monastérios, em 1537. Na verdade, não havia sequer uma família poderosa da Inglaterra que não tivesse sido presenteada com alguma dessas terras. Os Howards, Brandons, Fitzgeralds, Courternays e tantas outra Casas Ducais haviam sido agradadas com uma parte do lote de alguma delas. E estes poderosos, logicamente, não desejavam nem um pouco desfazer-se das terras. E para completar este 'jogo-de-sinuca', a maior parte deles era Protestante.Mary foi aconselhada pelo experiente imperador Charles V, seu primo, a não desgostar os poderosos por enquanto. Ele argumentou que sua situação no Trono ainda era bastante irregular, e que ela teria de se conformar em apenas mandar rezar missa em seus aposentos particulares.     (Manuscrito retratando Mary em seus Trono, no Parlamento)

Por enquanto, Mary realmente se comportaria de maneira leve. Em 5 de outubro de 1553, o Parlamento comunicou à Rainha que a legitimidade sobre sua "nobilíssima pessoa" havia sido anulada. Novamente se comportando com moderação, Mary concordou em manter-se, por enquanto, como Chefe Suprema da Igreja da Inglaterra. Mas seus planos não eram esses. Em seu próprio entender, essa medida indesejada serviria ao menos para banir os bispos Protestantes de seus cargos. Novamente,o católico Bonner era bispo de Londres; Gardiner retornou ao Bispado de Winchester, e tornou-se um Conselheiro da Rainha.Os cultos Católicos voltaram a ser estimulados, e os sacerdotes casados foram expulsos de suas paróquias. 

Apesar dos vinte anos distante do seio Papal, a Inglaterra era predominantemente Católica. Em 4 de março de 1554, o Catolicismo foi restaurado como religião oficial da Inglaterra, conjuntamente com a autoridade Papal. Como também foi proibido qualquer movimento protestante, ou a própria 'heresia'. Toda essa reviravolta teológica não provocou a metade da confusão do que o casamento da rainha Mary. O Conselho, como o povo, gostaria de um consorte inglês e jamais  um estrangeiro. O pretendente favorito da rainha era o príncipe Espanhol Philip de Habsburgo, em contragosto da xenofobia inglesa. Quando finalmente Mary I desposou Philip em 6 de março de 1554 - para consumar o matrimônio mais de quatro meses depois - o povo e o Conselho tremeram. Eles temiam que a Espanha envolvesse os, até então, neutros ingleses nos constantes conflitos com a França. 

O país se revoltou. O duque de Suffolk (o pai de Jane Grey, que havia há pouco obtido perdão) liderou uma revolta em Warwickshire, Sir James Croft lideraria em Welsh, Peter Carew estava na cabeça do povo de Devonshire, e Sir Thomas Wyatt lideraria a revolta maior, no Kent. Todos esses altos membros da nobreza tinham razões, além do casamento da rainha, para se revoltar. Não estavam nem um pouco dispostos a devolver suas terras retiradas da Igreja na Dissolução dos Monastérios. Todos esse aparentemente espertos conspiradores, tiveram um único erro: confiar seus planos seus planos à Courtenay. O fato é que, a mando de Mary, o bispo Gardiner vigiava de perto este elemento perigoso. E ao recair alguma suspeita sobre Courtenay, este participou de uma sessão de tortura promovida por Gardiner. Deste modo totalmente covarde, ele teve de falar os planos de seus confidentes. De maneira desesperada, Suffolk, Croft, Carew e Wyatt levantaram armas contra a Rainha. Wyatt reuniu um exército de sete mil homens e pôs-se na pota de Londres. O povo portou-se de maneira conivente para com ele, e o próprio Conselho não moveu um dedo sequer para garantir a integridade da Rainha. Se não fosse pela demonstração de bravura de Mary I, seu reinado e provavelmente sua vida teriam acabado por ali. Ela foi pessoalmente à Assembléia dividida, sem saber saber qual partido tomar. Dentro de seu poder de persuasão, ela disse que "Não sei dizer quanto uma mãe pode amar um filho, pois nunca fui mãe de um, mas inegavelmente, se uma rainha pode amar com a mesma naturalidade e ardor seus súditos como uma mãe à seus filhos, sendo vossa dama e soberana, vos amo com toda ternura e ardor". Suas palavras foram calorosamente aplaudidas.

A Assembléia agora garantia seu apóio, assim puderam reunir 25.000 homens armados em um dia. Suffolk foi preso. Croft e Carew conseguiram fugir. Wyatt chegou até às portas do palácio da rainha, em Whitehall. Os soldados pediram que Mary fugir, mas ela demonstrando novamente coragem e força, negou-se. Wyatt foi finalmente preso e levado para a Torre de Londres. 

Mary respirou aliviada mais uma vez porém, agora com espírito totalmente alquebrado, já não era mais a rainha gentil.

 

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   'Bloody Mary', a Sanguinária