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'Bloody Mary', a Sanguinária
Agora
Mary totalmente apavorada, optou abandonar sua política de clemência, para a
felicidade de seus conselheiros. Ordenou a execução de Jane Grey . Na
realidade, Mary I nunca desejou levar a este extremo a questão de sua prima;
ela pensava, e com razão, que Jane não passava de um peão de jogo nas mãos
de Nothumberland e Suffolk. Existem registros de que Mary tentou persuadir o
Conselho de que a morte de Grey não era necessária, porém ao final, foi ela
convencida do contrario. Lady Jane Grey, que na verdade nunca havia desejado ser
rainha, foi assim decapitada (12 de fevereiro de 1554), seguindo o mesmo fim de
Nothumberland e de seu pai. Dois meses depois, o próximo seria Thomas
Wyatt. Agora, a própria Lady
Elizabeth também era uma suspeita de traição. As investigações começaram
quando Sir Thomas Wyatt afirmou de que ela estaria envolvida em seus planos.
Dentro dos conselhos de Charles V, Mary mandou sua irmã para St James Palace
durante um mês, e depois por dois na Torre. O embaixador da Espanha Renard
aconselhou-a a fazer a execução imediatamente; mas Mary, novamente
demonstrando clemência, libertou Elizabeth apesar de ter mais provas contra do
que a favor dela. Esta foi enviada `a Woodstock, com alguma liberdade de
movimentos apesar de ser constantemente vigiada. (Rainha
Mary I Tudor em 1554)
Casada com Philip, Mary agora julgava-se grávida. Ela desejava de todo modo um herdeiro para o Trono, e evitando assim ascensão Protestante de Elizabeth. Conceber, nos últimos meses, havia se tornado uma obsessão para ela. A rainha tinha plena sabedoria que sua saúde perturbada não deixaria que ela vivesse por mais muitos anos; na realidade, ela tinha a aguda consciência de que dificilmente ela sobreviveria as dores de um parto. O nascimento de um bebê vindo de uma mulher com 38 anos, no século XVI, já era algo extremamente perigoso. Ainda mais se essa mulher for doente, como Mary. Ou melhor, um parto até para uma jovem e saudável mulher era complicado, por causa da deficiência tecnológica, falta de meios e até por causa da quase ausência de higiene. Ela tinha exemplos próximos para conferir: a saudável rainha Jane Seymour, morreu em seus tenros 27 anos por causa do parto que resultou em Eduardo. A rainha Catherine Parr, já em seus considerados 'maduros' 35 anos e também nem tão forte, idade e condições próximas da que Mary teria agora, seguiu o mesmo destino de Jane Seymour. Elizabeth de York, rainha de Henrique VII e assim avó de lado paterno de Mary, morreu ao dar a luz à um bebê aos 36 anos de idade.
Agora feliz pela suposta gravidez, o próximo passo de Mary I buscar o perdão de Roma pelas "injúrias à Fé" cometidas por Henrique VIII. O convocado para a 'missão', foi o recém chegado de Bruxelas cardeal Reginald Pole. Pole foi amigo e amor da vida da rainha. Pole era íntimo do Papa, e além de tudo, tinha prestígio diante dele. Reginald não ia à sua Terra Natal fazia quase vinte anos, e recebeu uma calorosa recepção por parte da rainha e sua corte. Saudou à Mary com uma frase do bom latim da Religião Católica: Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum benedicta tu in mulieribus e logo completou em inglês "bendito seja o fruto de vosso ventre". Essa alusão ao filho que Mary esperava, fez com que a corte gritasse: "Salve o Príncipe, filho da Rainha". Era 20 de novembro de 1554, provavelmente o dia mais feliz da vida de Mary como rainha.
A felicidade suprema para o parlamento veio mesmo quando Pole anunciou que o Papa não exigira a devolução das terras da Igreja. Assim, eles reconheceram finalmente a autoridade da Igreja, e se redimiram por aceitarem as ordens do Arcebispo Cranmer durante o reinado de EduardoVI.
Porém, nem tudo era
felicidade. A Rainha Mary Tudor, na verdade, sofria de
gravidez psíquica, e
para o seu desespero, já começava a sentir os primeiros sintomas da menopausa.
Seu pânico fez com que Philip se afastasse dela, e fosse embora em agosto de
1555. Já nesta época, há cerca de um ano que as fogueiras estavam acesas.
Todos aqueles protestantes homem ou mulher independente da idade ou posição
social, era queimado vivo. Os arcebispos Cranmer, Latimer, Hooper e Ridley (qual
havia chamado Mary de bastarda) e outras pessoas foram por este caminho. Os
quatro foram mentores da Reforma na Inglaterra no reinado de Henrique VIII,e
depois, no reinado de Eduardo VI. E liderando toda esta perseguição religiosa,
estava o arcebispo Stephan Gardiner. O povo, agora meio Protestante, observou
tudo levemente hostil. A rainha que eles aprenderam a amar durante sua
juventude, que eles chamaram de 'amada', agora era a 'Sanguinária'(Bloody
Mary). Os católicos, tentaram rebater com o cognome de 'A
Católica'. (Rainha Mary I, 1555)
Mary ficou embasbacada quando Gardiner lhe informou que as 'ceitas pagãs' estavam voltando. Hoje em dia se sabe que não eram exatamente 'pagãos'. Na realidade, eram apenas grupos vandalistas que recusavam a divindade de Jesus Cristo. Eles promoviam atos bárbaros como foi o de cortarem o nariz de um sacerdote no Kent. E também, pode ter sido ato deles ou de Protestantes, quando jogaram um cão morto com a cabeça monasticamente tonsurada pelas janelas de um dos aposentos da Rainha. Já corriam por toda a Inglaterra (assim como por toda a Europa), panfletos Protestantes falando sobre o "imundo culto em latim" de uma "missa de idólatras". As reuniões desses Protestantes chegava a reunir 17.000 pessoas, e discutiam sobre a proposta de pôr Lady Elizabeth no Trono.
Em novembro de 1555, Mary perdeu um grande aliado: Gardiner, já há alguns meses com a saúde debilitada, morreu. Em seu lugar, o arcebispo Bonner assumiria as matanças. Bonner era ainda mais implacável do que Gardiner: nos próximos tempos, mandaria quase 400 pessoas à fogueira. O cardeal Pole, na verdade, não teve participação direta nas perseguições. Ele era de natureza quase tão sensível quanto a da Rainha - como eles costumavam dizer, eram "feitos da mesma carne"- consegui convencer Bonner a não mandar para a fogueira vinte mulheres. Porém, declarou que os grandes hereges fossem "afastados da vida como membros do corpo que tivessem apodrecido". Diferente da opinião de Pole, Mary I preferiu dizer que "a punição dos hereges deve ser feita sem precipitação, devendo-se, entrementes, aplicar a justiça a aqueles que, pela inteligência, procuram ludibriar as almas simples". Resumindo, ela preferia acabar com os pastores e bispos Protestantes, e não o povo que escuta seus sermões. Porém, com a política de intolerância que Bonner a obrigava a seguir, isso seria impossível. Assim, o cheiro de carne humana queimada era inconfundível nas ruas de Londres.
Não podemos dizer que Mary não tenha parcela de culpa alguma nas desgraças de seu reinado; sim, ela teve, porém poucos levam em conta que por trás de um monarca havia um conselho clemente ou não. E a verdade, é que Mary I era uma pessoa totalmente flexível em muitos aspectos, menos em sua fé. Essa característica, combinada com o fato de ela não poder ser citada como exemplo de governador absolutista (como todos os Tudor foram), fizeram dela quase um boneco nas mãos dos terríveis clérigos, principalmente do cardeal Pole. Mary, desde muito pequena, foi incentivada a confiar-lhe tudo, desde assuntos de Estado até o coração. Podemos observar isso muito bem, encarando o fato de o reinado de Mary ter sobrepujado a clemência até Pole chegar de seu exílio em Bruxelas.
A Rainha Mary I, foi lentamente caminhando para o seu fim. A última alegria em sua vida, provavelmente foi a visita do marido Philip de Habsburgo, em 20 de março de 1557. Porém, estava claro que as razões pela visita não eram sentimentais. A Espanha, novamente envolta a uma guerra com a França, precisava do apoio da Inglaterra. Ele conseguiu convencer Mary, tão preocupada a agradar o juveníssimo esposo a ajuda-lo. Philip persuadiu-a para tornar a missão menos odiosa aos Ingleses, moderando suas perseguições. De nada adiantou, pois Thomas Stafford (sobrinho do cardeal Pole), liderou uma perseguição com o objetivo de libertar o país das mãos de Philip e Mary. Derrotado, Stafford foi preso e enforcado. Tendo conseguido seus objetivos, Philip deixou a Inglaterra em julho.
Totalmente atordoada com a rejeição do amado marido, Mary declarou que nunca mais queria ver homens. Para completar seu fracasso, em 6 de janeiro de 1558, a Inglaterra perdeu a forte Calais durante a guerra, o porto que fora mantido por 211 anos em seio Inglês. Dizia-se que Calais era a jóia mais bela da Coroa. Quando soube da perda, a rainha gritou uma frase que se tornaria célebre: "Quando eu morrer, e abrirem o meu peito, encontrarão o nome de Calais gravado em meu coração". É uma das frases mais famosas da história da Inglaterra e de Calais.
Em princípios de 1558, Mary julgou-se novamente grávida. E a corte se perguntou como poderia estar grávida se não usufruía da companhia do marido há seis meses? Ora, a única companhia masculina da rainha, e amor de sua vida, era Reginald Pole. E foi ele mesmo o apontado, pela corte, como o pai da criança. Mas não para Mary. Ela nesta época, quase insana, gostaria de apoiar a tese que sua 'gravidez' já sustentava seis meses, e que era realmente de Philip. Mandou uma carta à ele informando-lhe, e pedindo que fosse à Inglaterra desfrutar do momento feliz. Ele enviou suas felicitações, mas informou que não iria até ela. Pouco tempo depois, Mary percebeu que sua gravidez na verdade era novamente psíquica.
Mary mergulhou em
depressão. Escrevia cartas manchadas com suas lágrimas à
Philip, e ao não receber as respostas, culpava a 'incompetência' dos
mensageiros que não faziam as mensagens chegar ao seu destino. Ela passava
horas e horas com os joelhos junto ao queixo, e andava pelo castelo como um
fantasma. (Rainha Mary I Tudor)
Uma peste, com o mesmo caráter da malária, assolou a Inglaterra no verão de 1558. E a rainha foi atingida pelo mal em setembro. Vítima também de 'excesso de bílis', hidropisia ovariana e sífilis, Mary tornou-se tão fraca, que os médicos desenganaram-na. No dia 6 de novembro, enviou as jóias da Coroa à Elizabeth, e fez o testamento, deixando como rainha a irmã mais jovem. Sofreu longos períodos de inconsciência; ao despertar de um deles, disse que sonhou com crianças brincando e cantando em volta dela. Em 17 de novembro, ouviu missa pela madrugada, e às seis horas da manhã, morreu. Pole também vitimado pela mesma peste, morreu horas depois da rainha.
Um historiador do séc. XIX, define assim Mary:
"Em relação à Mary I, podemos dizer algumas palavras complacentes. Dores, doenças e muitas injustiças que sofreu deformaram-lhe o espírito. Sua clemência cedeu lugar à crueldade somente depois que as conspirações procuraram priva-la da Coroa. Seguia confiante os conselhos dos eclesiásticos, os quais, tendo sofrido perseguições, procuraram vingar-se. Até o fim, julgou que, com aquelas execuções, estava cumprindo suas obrigações para com a religião que ela amava como a razão de sua própria vida. Não merece a alcunha de "Mary, a Sanguinária", salvo se aplicarmos o adjetivo a todos de seu tempo; esse adjetivo resume erroneamente o caráter, em que houve muita coisa para se amar. Se bem que pareça estranho, ela se destaca ao ter levado avante a obra do pai [Henrique VIII], de separar a Inglaterra de Roma. Mostrou ao país que era ainda católico a pior feição da igreja que ela servia. Quando morreu, a Inglaterra estava mais preparada do que nunca para aceitar a nova fé [Protestantismo] que ela se esforçara por destruir."