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Lady
Mary,a filha do rei
Quando
Mary voltou de Ludlow, quase não foi sentido diferença em seu tratamento.
Porém, o que ela menos sabia era que tudo mudou: a corte comentava da nova
amante do rei, Ana Bolena, qual o estava cativando. Ela havia se
educado em França, na corte da rainha Claude. Por cerca de oito anos, Ana havia
adquirido um excelente francês e tornado-se
mais francesa do que inglesa. Ana não era precisamente bela, mas tinha charmosos
olhos e cabelos negros e um belo pescoço longo.
(Ana Bolena)
Por enquanto, Mary não tinha motivos para desconfiar de nada: seu pai estava ensinando-a caçar com falcão,j á que ela era uma ótima amazona.Mas nada estava tão perfeito: Henrique pediu o divórcio de rainha Catherine para casar-se com Ana Bolena. Inicialmente, o plano era o seguinte: a rainha amigavelmente retiraria-se para um convento ou para o castelo que quisesse, com uma vultuosa pensão dada pelo rei, assim ele novamente casaria-se. Isso sem tirar a legitimidade da Princesa Mary, que continuaria tendo crédito na linha de sucessão, isto é, antes de qualquer filha mulher vinda posteriormente à ela.Quando esta proposta fora apresentada para Catherine, foi demais para o seu orgulho. Negou-se a aceitar. Assim Henrique teve que partir para outro plano: Catherine antes de casar-se com ele foi esposa de seu irmão primogênito Arthur príncipe de Gales, e como o texto bíblico Levítico diz para "não desnudar a mulher de teu irmão", o casamento de Henrique com ela seria incestuoso e estavam condenados a morrer sem filhos. Quanto aos filhos, Catherine alegou que o casamento era bem aceito por Deus já que Mary estava viva e com saúde. Henrique rebateu que o termo filhos referia-se a filhos homens.
Naquele mesmo ano de 1527, o rei mandou uma nota ao papa pedindo uma anulação de seu casamento. O imperador Charles V logo sabendo do assunto, apoiou decididamente sua tia, a rainha Catherine. Ele exercia um grande poder no papa Clemente, ainda mais quando as tropas imperiais tomaram e saquearam Roma em 1528. Nessas circunstâncias, Clemente recusou-se a conceder anulação alegando que no casamento anterior não houve consumação, diferentemente do atual, devidamente legal e consumado. Henrique VIII mandou-lhe outra carta dizendo que a rainha e seu irmão haviam estado juntos em um mesmo leito, portanto o matrimônio foi "carnalmente verdadeiro". De nada adiantou, já que o papa não mandou sua resposta.
A
princesa no momento não demonstrou sua opinião. Ela estaria estudando muito o
assunto. Mas Mary estava bastante incomodada e prejudicada com a situação: sua aliança
francesa, recentemente restaurada, quebrou-se novamente com a provável desvalorização de
Mary. Assim o
conselho do rei apresentou outra proposta ao seu senhor, qual era a de sua filha
casar-se com o irmão bastardo Henry Fitzroy, em troca de que ele esquecesse a
idéia do divórcio. O próprio papa Clemente VII estava inclinado a conceder sua
despensa se o rei desistisse de sua idéia. Porém, Henrique VIII não levou a proposta
a sério que logo foi esquecida. (Castelo
de Beaulieu)
Por volta de 1530, Mary Tudor começou a demonstrar-se a favor de sua mãe. Estava ficando insolente, fazendo sátiras sobre o assunto,e destratando Ana sempre que podia. E o povo pensava igual a ela. Eles amavam profundamente a princesa e sua mãe, ovacionando-as sempre que apareciam em público, e vaiando Bolena.
Esgotada a paciência do pai, Mary foi afastada de sua mãe e da corte em 1531 e levada para o castelo de Beaulieu, uma casa aconchegante de torrinhas vermelhas. O rei lhe fez uma única visita no final de 1532, já que sempre que ele comentava que gostaria de ver a filha Ana Bolena o aconselhava a remover a idéia. Foi dito que ele falou pouco, e perguntou-lhe como estava sua saúde.
O
inevitável casamento de Henrique VIII com Ana Bolena se deveu secretamente em
janeiro de 1533. Ela estava grávida, e o rei mostrava-se muito esperançoso
para que
ela desse a luz ao tão suspirado filho homem. Em abril a união tornou-se
pública. Henrique imediatamente mandou duas notas à filha, uma comunicando-lhe seu
casamento, e a outra proibindo-a de escrever cartas para sua mãe. Ela
pediu-lhe
para mandar a mãe uma última carta, mas ele assim o negou. Logo depois, Mary
Tudor entrou em depressão e perdeu a vontade de viver. Apesar do espírito
quebrado, Mary pouco o demonstrava: tornou-se forte e muito sério, contendo-se
para nunca deixar lágrimas serem vistas em seu rosto.
O embaixador imperial Eustace Chapuys lhe servia de consolo. Dizia-se que Eustace estava apaixonado por sua protegida, que nesta época era uma dama bonita e perdidamente vulnerável.(Suposto retrato de Mary Tudor)
Em 7 de setembro nasceu a criança de Ana. Mas não era o esperado 'prince', e sim 'princess', que foi chamada de Elizabeth. Ela era uma menina bem ruivinha, graciosa, e acima de tudo saudável. Apesar de tudo, aos olhos de Henrique VIII, Ana Bolena não havia cumprido o sru papel: não gerara um filho homem. A pequena Elizabeth foi logo anunciada como o único rebento legítimo do rei, sinal da ilegitimação da filha primogênita. E para confirmar o prognóstico, em outubro do mesmo ano sua suntuosa criadagem, coordenada pela carinhosa e rigorosa Salisburry, fora dissolvida e logo depois foi servir sua meio-irmãzinha Elizabeth em Hatfield. Quando Norfolk foi anunciar-lhe que teria de ir para Hatfield, ela não relutou e disse que iria chamar Elizabeth de irmã, mas a achava "tão bastarda quanto Henry Fitzroy".
Mary estava sendo servida por apenas cinco serventes, todas espiãs .A governa era Lady Anne Shelton, tia de Ana Bolena, que sempre dava boas bofetadas na face de Mary para "a bastarda criar modos".Ela sempre dizia à Mary que se "ela fosse o rei, botar-vos-ia para fora do palácio real por sua rebeldia". Além de Mary ter de dar suas jóias para o pequeno bebê, também foi obrigada a recolher-se ao pior quarto da casa e a trancar-se quando o rei ou a 'rainha' Ana fossem visitar a pequena filha. Em uma dessas visitas, quando o rei Henrique já estava nos jardins do palácio para ir embora, Mary apareceu em uma das torres para saudá-lo. Quando ele a viu, fez uma longa mesura e retirou-se cavalgando.
Sua ilegitimação ficou ainda mais evidente quando controlador da casa Real, Willian Paulet, mandou-lhe uma carta chamando-a de 'Lady Mary, a filha do rei'(Lady Mary,the king's daughter). Mostrando-se não tão dócil Mary escreveu uma carta ao rei carregada de selos reais, como de Princesa de Gales, Inglaterra, Irlanda, e procuradora do País de Gales. Disse-lhe que ele queria tirar "de mim a legalidade de sua filha, nascida em verdadeiro casamento. Se eu concordasse com o contrário ofenderia á Deus; em todas as outras coisas, Sua Graça, encontro-me uma filha obediente". O rei escreveu que ela tinha esquecido os seus deveres filiais na "arrogância ao usurpar o título de princesa".
Apesar do rei ter proibido terminantemente as correspondências trocadas entre Mary e a mãe, a ordem foi totalmente ignorada já elas continuavam escrevendo-se constantemente. Catherine lhe ditava como agir e pensar. Sem a intenção, ela colocou Mary contra o rei e Ana Bolena, além de coloca-la em constantes 'saias-justas'. (Castelo de Hatfield)

Durante sua estada em Hatfield, Mary não estava tão pobre quanto se achava: ela tinha uma vultuosa fortuna em seu cofre, tanto que sua mãe aconselhou-a em uma carta para esconder as chaves muito bem. Alguns suspeitam que a origem do dinheiro seja que ela não entregou todas as suas muitas jóias para a princesa Elizabeth, assim vendendo as que sobraram; outros acham que foi uma colaboração do imperador Charles V ou do próprio embaixador imperial Eustace Chapuys .O imperador, como sobrinho de Catherine e primo de Mary Tudor, estava dando total apoio para elas. Mary, por intercessão de seu embaixador Eustace Chapuys, convenceu-o a ajuda-la a fugir para a Espanha. Ela mesma arquitetou vários mapas do castelo e planos que um cavaleiro viria busca-la. Todos sem cumprimento.
No inverno de 1534, Mary adoeceu perigosamente. Ela tinha náuseas, amenorréia, insônia, e "sofria dos nervos". O rei mandou seu médico particular, o doutor Willian Butts, e alguns pensam que lhe foi permitido ver sua mãe. Mary Tudor escapou por muito pouco da morte, mas sua saúde continuaria abalada pelo resto da vida.
Mary havia tornado-se uma moça inteligente e bonita, conquistando os mais sinceros admiradores. Comentava-se, além de Eustace Chapuys, sobre Reginald Pole. Pole era o filha mais jovem da condessa de Salisburry, era amigo um amigo de infância, e fora ordenado cardeal em 1533. Conquistaram uma forte amizade, e tudo indica sobre algo também sentimental. Ao que parece, diferente de Chapuys, o amor de Reginald Pole era devidamente correspondido. Eles acima de tudo tinham várias coisas em comum, a religião, a opinião sobre o divórcio do rei, e ambos não haviam escondido-na de ninguém.
Em pouco tempo,a queda de Ana Bolena foi notoriamente aceita.O rei já havia retomado a rotina com amantes,tendo atenção especial por uma certa Jane Seymour,dama de companhia de Catherine,e depois de Ana.Ela era filha de Thomas Seymour,homem que serviu fielmente a Henrique VII e a Henrique VIII.Ela tinha dois irmãos,os ambiciosos Thomas e Edward.Jane era loira e medianamente bonita,e era amável e delicada.Diferente de Ana,que fora dita "mais luterana que o próprio Lutero",era boa católica,e a favor(secretamente) da causa da Mary e da mãe.
Neste meio tempo, Ana Bolena começou um veemente ataque contra a enteada. Ela dizia dramaticamente
que "ela é minha morte, e eu sou a dela", e que a "bastarda"
era muito insolente e não a tratava com o devido respeito. Ela fez a cabeça do
rei Henrique para aprisiona-la na Torre de Londres, mas o Conselho o impediu
alegando que o ato inflamaria ainda mais o povo contra ele. Mary era
orgulhosa e corajosa, e jamais enquanto Ana Bolena ainda existisse, aceitaria
tal casamento e sua condição de filha ilegítima. (Mary
Tudor, detalhe de 'A Família de Henrique VIII')
Enquanto a popularidade de Ana caía, a de Mary disparava. Agora que Catherine estava doente e raramente saía dos muros do castelo de Kimbolton, onde estava isolada pelas ordens do rei, sua filha assumia seu lugar no coração e na simpatia do povo. Catherine era ainda mais que isso, era idolatrada e quase santificada pela gente pobre, e tornou-se a mais adorada rainha que a Inglaterra teve. Para a população elas seriam eternamente a Princesa Mary e a Boa Rainha Catherine. De nada adiantava os trabalhos sociais realizados por Ana. O povo realmente a desdenhava, principalmente as damas casadas, que colocavam-se no lugar de uma mulher repudiada pelo marido.
No final do ano de 1535 a doença da rainha Catherine agravou-se; em 7 de janeiro de 1536 ela morreu. Mary foi acometida por uma grande dor, agravada pelo fato de não ser permitida comparecer nos funerais. No dia do enterro, Ana Bolena intrigantemente deu a luz para um menino morto e o rei jurou que não teria mais filhos com ela. Sua queda era eminente. Ana começou a correr contra o tempo: convidou a própria Mary para passar alguns dias no castelo de Elthan com ela. Foi um fracasso. Um dos constrangedores episódios deveu-se na capela: quando Mary estava se retirando, fez uma longa mesura e uma das damas presentes, entendendo mal seu gesto, disse a rainha Ana que "Lady Mary" havia cumprimentado-na. Feliz e aliviada, Ana mandou um bilhete na hora do jantar "saudando a querida enteada, e fazendo votos de amizade". A 'querida enteada' mandou-lhe uma nota desaforada dizendo que "como a rainha poderia saudar-me se ela já não está mais aqui (alusão para a mãe morta recentemente)", e que a mesura era dirigida "não para ti, e sim à Deus, meu Criador e o seu."
Ana desprovida da esperança de proteção de Mary, foi encarcerada na Torre de Londres no início de maio. Condenada por adultério com cinco homens, incluindo seu irmão, e prática de feitiçaria, foi decapitada na manhã de 19 maio de 1536. Poucos dias depois, o rei Henrique casou-se com Jane Seymour, uma dama da corte do partido conservador católico.
Logo depois, o conselho Real comandado pelo duque de Norfolk seguiu para Hatfield com o intuito de fazer a 'Lady Mary' assinar os Atos de Sucessão e Supremacia. O de Sucessão declarava Mary uma bastarda (e agora também Elizabeth), e que o casamento com Catherine de Aragão era incestuoso e ilegal. O de Supremacia deixava claro a quebra com o papa, e colocava o rei como Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra, assim criando a doutrina Anglicana que seria a religião oficial de estado. Mary negou-se assina-los, mesmo quando Norfolk disse-lhe que sua cabeça ia ser "cortada e jogada na parede com tamanha violência" e seu corpo "seria asado como uma maçã". Mary mantinha-se indiferente a tais ameaças. Parecia que ela não se importaria se realmente fosse morta, muito menos que seu corpo fosse 'assado como uma maçã'.
A primeira reação do rei ao saber da resistência da filha, foi manda-la para a prisão na Torre de Londres. Todavia, o Conselho persuadiu-o a ter mais paciência da Conselho do rei liderado pelo duque de Norfolk foi até Hatfield com o intuito de fazer Mary assinar o Ato de Sucessão e Supremacia. Cansada e desgastada, em 22 de junho de 1536, às onze horas da noite, ela assinou ao documento qual a reconhecia como bastarda e aceitava seu pai como Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra. Logo, ela também escreveu uma carta a Henrique VIII pedindo-lhe perdão pelos anos desobediências.
Henrique ficou muito feliz, e desejava vê-la em breve.
Mary tinha vinte anos. Henrique não a via desde os dezesseis.
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